Quando realizar um sonho não resolve o que você imaginava
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  • Ana Carla Risson
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  • 24, Junho, 2026
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Quando realizar um sonho não resolve o que você imaginava

Existe uma fantasia bastante difundida de que, ao atingir um determinado ponto na vida, algo finalmente se resolve. Como se houvesse um “lá”, um momento em que tudo se organiza, as angústias cessam e a vida, enfim, entra no lugar.

Para alguns, esse “lá” pode estar ligado a um trabalho, a um relacionamento ou a uma estabilidade financeira. Para outros, pode se concentrar na mudança de cidade, de país ou na conquista de um estilo de vida sonhado, como morar perto do mar, por exemplo. A ideia que sustenta essa fantasia é a de que, ao alcançar esse ponto, seria possível, de algum modo, “zerar a vida”.

No entanto, a experiência muitas vezes segue outro caminho. O sonho se realiza, a mudança acontece, o cenário esperado se concretiza e, ainda assim, algo permanece. Novas questões surgem, outros incômodos aparecem e desejos que antes não estavam tão evidentes passam a ocupar um lugar.

Esse descompasso entre o que se imaginava e o que se encontra pode gerar estranhamento e, em muitos casos, frustração. Afinal, se aquilo que foi investido como solução não produz o efeito esperado, o que fazer com o que aparece no lugar?

A Psicanálise, a partir de Freud, oferece uma via de compreensão para esse movimento. O desejo humano não se organiza como uma meta que, uma vez alcançada, se encerra. Ao contrário, ele é marcado por uma dinâmica de deslocamento constante. Quando algo se realiza, o desejo não desaparece; ele se transforma, se reinscreve e se direciona a novos objetos.

Isso implica reconhecer que não há um ponto final em que tudo se resolve de maneira definitiva. A fantasia de que “quando eu chegar lá, tudo vai ficar bem” pode funcionar como um motor importante para o movimento, mas também pode se tornar uma armadilha quando a realidade não corresponde a essa expectativa.

Diante dos novos impasses que surgem após uma conquista, algumas pessoas podem se ver tomadas pela frustração, como se algo tivesse dado errado. Outras podem permanecer presas à ideia de que ainda falta ajustar alguma coisa, sustentando a busca por uma versão ideal da vida que nunca se completa.

Nessa dinâmica, há o risco de não conseguir se implicar naquilo que já foi conquistado, mantendo-se sempre em falta, sempre projetado em um próximo passo, sem conseguir, de fato, habitar o presente.

A Psicanálise não propõe eliminar o desejo nem oferecer um estado de satisfação plena. Ela permite construir uma outra relação com isso, menos orientada pela ideia de completude e mais aberta à compreensão de que o desejo se move, se transforma e não se encerra em uma conquista.

Talvez, mais do que “chegar lá”, a questão esteja em como cada um se posiciona diante daquilo que alcança. Em que medida é possível sustentar o desejo sem se aprisionar à fantasia de que, em algum momento, tudo finalmente se resolve.

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