Morar no exterior e não se sentir em casa: o que a Psicanálise pode escutar
  • Artigos
  • Ana Carla Risson
  • Comentários (0)
  • 24, Junho, 2026
  • 4 min de leitura

Morar no exterior e não se sentir em casa: o que a Psicanálise pode escutar

Nem sempre o movimento de sair do próprio país começa com uma decisão consciente de conhecer o mundo. Para algumas pessoas, esse deslocamento vem de antes, sustentado por uma sensação persistente de não pertencimento. Como se, desde cedo, algo não encontrasse lugar, como se fosse preciso sair para, de algum modo, construir esse lugar em outro canto.

Morar fora, nesse sentido, não se reduz a uma mudança geográfica. Trata-se também de uma tentativa de fazer casa, de criar vínculos, de inventar formas de viver e, em certa medida, de se autorizar a existir de outro modo. No entanto, esse gesto, que muitas vezes exige coragem, também carrega suas ambivalências.

A experiência de viver entre línguas e culturas pode produzir deslocamentos importantes. A sensação de não ser totalmente compreendido, somada ao esforço constante de adaptação, nem sempre se traduz em reconhecimento. Em muitos casos, o que aparece é a solidão, mesmo quando há conquistas, movimento e novas possibilidades.

Há quem encontre, nesse percurso, uma via de reinvenção. Mas também há quem se depare com algo que já estava presente antes da mudança e que segue insistindo, agora em um outro cenário. Isso porque mudar de país não apaga a história; em muitos casos, a torna ainda mais evidente.

Aquilo que não encontrou lugar em um contexto pode reaparecer em outro, não como uma repetição idêntica, mas como algo que retorna sob novas formas, atravessando relações, escolhas e modos de estar no mundo. Nem sempre é simples falar sobre isso, especialmente quando a experiência de morar fora é frequentemente narrada a partir de ideais de sucesso, liberdade e realização, deixando pouco espaço para aquilo que não se encaixa nessas imagens.

Há, no entanto, uma dimensão dessa experiência que não se reduz à adaptação. Trata-se de algo que diz respeito à relação de cada um com sua própria história, com seus vínculos e com aquilo que, em si, ainda está em construção.

É justamente nesse ponto que a Psicanálise se coloca. Não pelo deslocamento em si, mas pelo que ele pode revelar. Porque, muitas vezes, mesmo quando se encontra um lugar físico para viver, a sensação de não pertencimento permanece, como se algo continuasse fora de lugar, independentemente do país, da língua ou das circunstâncias.

Nesses casos, o que se repete não está apenas do lado de fora. Diz respeito à forma como cada um se relaciona com sua história, com seus vínculos e consigo mesmo. O deslocamento geográfico, então, não resolve necessariamente essa questão, mas pode, em alguns casos, torná-la ainda mais visível.

Talvez, para algumas pessoas, sair tenha sido uma tentativa de encontrar um lugar no mundo. No entanto, ao longo do caminho, pode surgir uma outra pergunta: a possibilidade de se sentir, de fato, em casa dentro de si.

É nesse ponto que o trabalho analítico pode abrir espaço para que essas repetições sejam escutadas, permitindo uma outra relação com aquilo que insiste e, muitas vezes, limita as formas de viver.

 

Comentários (0)

Deixe seu Comentário